Amostragem do ar pode antecipar detecção de vírus respiratórios em aves, mostra estudo

Detectar a circulação de um vírus respiratório antes que as aves apresentem sinais clínicos pode ampliar as possibilidades de resposta dentro de uma granja. Um estudo publicado em 2026 na revista científica Veterinary Microbiology mostrou que a amostragem do ar pode funcionar como ferramenta complementar de vigilância ambiental para vírus respiratórios aviários, permitindo identificar circulação viral em nível de lote sem depender exclusivamente da coleta individual de amostras nas aves.

O trabalho, liderado por Claudia Trenado, da Universidade Complutense de Madri, comparou diferentes tipos de filtros para recuperação de quatro importantes vírus respiratórios da avicultura: metapneumovírus aviário (aMPV), vírus da bronquite infecciosa (IBV), vírus da laringotraqueíte infecciosa (ILTV) e vírus da doença de Newcastle (NDV).

Depois dos testes laboratoriais, os métodos considerados mais eficientes foram levados para uma granja comercial de matrizes, onde a equipe conseguiu detectar IBV em amostras ambientais mesmo na ausência de sinais clínicos nas aves.

O resultado abre uma possibilidade interessante para os programas de biosseguridade: usar o próprio ambiente do galpão como fonte de informação para identificar precocemente a circulação de agentes respiratórios.

O que os pesquisadores queriam descobrir?

A transmissão pelo ar participa da epidemiologia de diferentes doenças respiratórias das aves.

Vírus e partículas virais podem estar presentes em gotículas, poeira, penas, secreções e outros materiais suspensos no ambiente. Apesar disso, os métodos de coleta e recuperação desses agentes no ar ainda não possuem uma padronização tão consolidada quanto técnicas tradicionais baseadas em swabs e amostras clínicas.

Os pesquisadores buscaram, portanto, responder a duas questões principais:

  • qual tipo de filtro recupera melhor vírus respiratórios presentes em aerossóis;
  • se um método otimizado em laboratório conseguiria funcionar em uma granja comercial.

Para isso, foram comparados filtros à base de celulose, gelatina e politetrafluoretileno (PTFE).

Quatro vírus respiratórios entraram na comparação

Na etapa experimental, os pesquisadores trabalharam com:

  • metapneumovírus aviário (aMPV);
  • vírus da bronquite infecciosa (IBV);
  • vírus da laringotraqueíte infecciosa (ILTV);
  • vírus da doença de Newcastle (NDV).

Os vírus foram aplicados aos diferentes materiais filtrantes para avaliar quanto material viral poderia ser recuperado posteriormente.

Além do tipo de filtro, a equipe testou diferentes soluções e métodos de processamento, porque capturar a partícula é apenas uma parte do processo: é necessário conseguir recuperar adequadamente o material retido para realizar os testes moleculares.

PTFE e gelatina apresentaram os melhores resultados

Os filtros de PTFE e gelatina apresentaram as maiores taxas de recuperação viral em laboratório.

Em determinadas condições otimizadas, ambos apresentaram perdas inferiores a 1 log na recuperação dos vírus avaliados.

Os resultados mostraram ainda que o desempenho não depende apenas do material do filtro. A solução usada para retirar o vírus do filtro e o método de processamento também interferem diretamente na recuperação.

Isso significa que, para transformar a amostragem de ar em ferramenta de vigilância, não basta simplesmente instalar um coletor dentro do galpão. Todo o protocolo — coleta, filtro, processamento e diagnóstico — precisa ser validado.

Teste foi levado para uma granja comercial de matrizes

Depois da etapa laboratorial, os pesquisadores avaliaram os filtros de melhor desempenho em uma granja comercial de matrizes localizada na região de Castilla-La Mancha, na Espanha.

A propriedade alojava aproximadamente 2.840 fêmeas e 207 machos.

Foram realizadas duas rodadas de amostragem, quando as aves estavam com aproximadamente 67 e 77 semanas de idade.

O estudo utilizou dois tipos de coleta:

Amostragem ativa

Um equipamento força determinado volume de ar a atravessar o filtro, concentrando as partículas presentes no ambiente.

Amostragem passiva

Filtros permanecem expostos no galpão por determinado período, permitindo que partículas suspensas se depositem sobre o material.

Os pesquisadores também coletaram outros tipos de amostras ambientais e individuais para comparar os resultados.

IBV apareceu no ambiente mesmo sem sinais clínicos

Esse foi um dos achados mais interessantes do trabalho.

Nas duas rodadas de campo, o vírus da bronquite infecciosa foi detectado nas amostras ambientais, incluindo os filtros de ar.

As aves não apresentavam sinais clínicos compatíveis com um quadro evidente de bronquite infecciosa.

Isso demonstra que a amostragem ambiental pode identificar circulação viral de baixa intensidade ou subclínica, situação que poderia passar despercebida quando a vigilância depende apenas da manifestação clínica do lote.

Nas amostras individuais, testes moleculares também detectaram IBV em alguns swabs cloacais.

Duas linhagens de IBV foram identificadas

O sequenciamento parcial permitiu identificar vírus relacionados às linhagens:

  • GI-12, semelhante a D274;
  • GI-13, relacionada a 793B/4-91.

A presença dessas linhagens precisa ser interpretada considerando o histórico de vacinação do lote.

Os próprios pesquisadores destacam que estudos adicionais, incluindo sequenciamento genômico mais amplo, são necessários para determinar com maior precisão se os vírus detectados possuem origem vacinal ou de campo.

Esse detalhe é particularmente importante em programas de monitoramento de aves vacinadas com imunógenos vivos.

Encontrar material genético viral não significa necessariamente identificar um novo desafio de campo.

Detectar RNA viral não significa comprovar transmissão aérea

Esse é um cuidado fundamental na interpretação do estudo.

A presença de material genético viral em um filtro demonstra que partículas contendo RNA do vírus estavam presentes no ambiente no momento da coleta.

Isso, isoladamente, não comprova que havia quantidade suficiente de vírus infectante para transmitir a doença pelo ar.

Também não permite determinar automaticamente:

  • a dose infectante presente;
  • por quanto tempo o agente permaneceu viável;
  • qual distância poderia percorrer;
  • se efetivamente ocorreu transmissão entre aves por aquela via.

Portanto, a amostragem do ar deve ser entendida principalmente como uma ferramenta de detecção e vigilância ambiental, e não como prova isolada de transmissão aérea.

E o vírus viável?

O estudo também avaliou a capacidade de replicação de parte do material identificado.

A inoculação de determinadas amostras cloacais em ovos embrionados permitiu recuperar vírus com capacidade de replicação.

Esse resultado complementou os achados moleculares nas aves.

É importante, entretanto, diferenciar esse resultado da análise dos filtros: o trabalho não demonstra automaticamente que todo material viral detectado no ar estava viável ou em concentração infectante.

Essa distinção é relevante para evitar interpretações além do que os dados efetivamente demonstraram.

aMPV, ILTV e Newcastle não foram detectados na avaliação de campo

Embora os quatro agentes tenham participado da etapa experimental para comparação dos filtros, no trabalho de campo o vírus encontrado foi o IBV.

As amostras avaliadas foram negativas para:

  • aMPV;
  • ILTV;
  • NDV.

Isso não significa que o método seja incapaz de detectar esses agentes.

Nos experimentos laboratoriais, PTFE e gelatina apresentaram bom desempenho também na recuperação desses vírus.

A validação de campo, entretanto, ocorreu em apenas uma propriedade e encontrou circulação natural principalmente de IBV.

Monitoramento ambiental pode complementar os swabs

Tradicionalmente, muitos programas de vigilância dependem da coleta de amostras diretamente das aves, como swabs traqueais ou cloacais.

Essas ferramentas continuam sendo fundamentais para o diagnóstico.

A amostragem do ar apresenta uma característica diferente: ela pode oferecer uma visão do ambiente coletivo do galpão.

Em vez de avaliar individualmente algumas aves, o filtro captura partículas presentes no espaço compartilhado pelo lote.

Na prática, essa estratégia pode ser interessante para:

  • triagem de lotes;
  • monitoramento entre coletas clínicas;
  • identificação de circulação viral subclínica;
  • acompanhamento de programas de vacinação;
  • definição do momento adequado para coleta individual;
  • avaliação de tendências dentro do galpão.

O estudo não propõe substituir os métodos diagnósticos convencionais, mas acrescentar uma nova camada à vigilância.

Por que isso pode ser interessante para a biosseguridade?

Um programa de biosseguridade não é formado apenas por barreiras destinadas a impedir a entrada de patógenos.

Ele também depende da capacidade de detectar rapidamente quando uma barreira falha ou quando um agente começa a circular.

Nesse contexto, a vigilância ambiental pode funcionar como um sistema adicional de alerta.

Imagine, por exemplo, um galpão sem aumento evidente de mortalidade, queda produtiva ou sinais respiratórios.

A detecção ambiental de determinado agente pode justificar:

  • intensificação do monitoramento;
  • coleta direcionada de swabs;
  • revisão do histórico vacinal;
  • avaliação da ventilação;
  • análise de movimentações recentes;
  • revisão das barreiras de biosseguridade;
  • acompanhamento mais frequente dos indicadores produtivos.

O valor está justamente na possibilidade de agir antes que o problema se torne clinicamente evidente.

Vigilância do ar não deve ser analisada isoladamente

Para aplicação prática, o resultado de um filtro precisa ser interpretado dentro do contexto epidemiológico da propriedade.

Um programa piloto de vigilância ambiental poderia combinar:

  • amostragem de ar;
  • swabs traqueais e cloacais;
  • histórico vacinal;
  • idade das aves;
  • sinais clínicos;
  • mortalidade;
  • queda de consumo;
  • indicadores produtivos;
  • ventilação;
  • densidade do lote;
  • registros de biosseguridade.

Essa combinação permite interpretar melhor o significado de um resultado molecular positivo.

No caso do IBV, por exemplo, conhecer quais vacinas vivas foram utilizadas é particularmente importante.

A ventilação pode interferir na detecção

A concentração de partículas suspensas no galpão pode variar de acordo com inúmeros fatores.

Entre eles estão:

  • ventilação;
  • velocidade do ar;
  • umidade;
  • densidade das aves;
  • quantidade de poeira;
  • posição do coletor;
  • distância das aves;
  • duração da coleta;
  • características da instalação.

Esses fatores ainda precisam ser mais estudados para estabelecer protocolos capazes de comparar resultados entre diferentes tipos de galpão.

Estudo ainda tem limitações importantes

Os próprios resultados precisam ser interpretados considerando algumas limitações.

A validação de campo ocorreu em uma única granja comercial, em apenas dois momentos.

Além disso, embora quatro vírus tenham sido avaliados experimentalmente, o principal agente encontrado no campo foi o IBV.

Os testes laboratoriais também utilizaram vírus aplicados diretamente aos filtros, condição que não reproduz integralmente a diversidade de tamanho, composição e comportamento dos aerossóis encontrados dentro de um aviário.

Ainda são necessários estudos para determinar:

  • sensibilidade em diferentes condições produtivas;
  • frequência ideal de coleta;
  • melhor localização dos equipamentos;
  • distância efetiva de detecção;
  • influência dos sistemas de ventilação;
  • desempenho em diferentes tipos de galpão;
  • comportamento para outros agentes respiratórios;
  • relação entre quantidade de genoma detectado e risco efetivo de infecção.

Uma nova camada para a vigilância sanitária

O estudo não transforma o filtro de ar em substituto do diagnóstico clínico ou laboratorial tradicional.

Seu principal valor está em demonstrar que o ambiente pode fornecer informações sobre a circulação viral do lote.

Em uma granja onde milhares de aves compartilham o mesmo ar, monitorar partículas suspensas pode ajudar a revelar o que ainda não é evidente pela observação clínica.

Para a biosseguridade, isso representa uma mudança interessante de perspectiva: além de estabelecer barreiras para impedir a entrada de agentes, os sistemas produtivos podem incorporar ferramentas ambientais capazes de indicar precocemente quando algum agente já está circulando.

Perguntas frequentes

O que é amostragem do ar em uma granja avícola?

É a coleta de partículas suspensas no ambiente do galpão por meio de filtros ou outros dispositivos, seguida de análise laboratorial para verificar a presença de material genético de agentes infecciosos.

Quais vírus foram estudados?

Foram avaliados metapneumovírus aviário (aMPV), vírus da bronquite infecciosa (IBV), vírus da laringotraqueíte infecciosa (ILTV) e vírus da doença de Newcastle (NDV).

Quais filtros tiveram melhor desempenho?

Os filtros de PTFE e gelatina apresentaram as melhores taxas de recuperação viral na etapa laboratorial.

O estudo detectou vírus antes de aparecerem sinais clínicos?

Na granja comercial estudada, o IBV foi identificado em amostras ambientais mesmo sem sinais clínicos evidentes nas aves, mostrando o potencial da técnica para revelar circulação viral subclínica.

Encontrar RNA viral no ar significa que o vírus pode infectar outras aves?

Não necessariamente. A detecção molecular comprova a presença de material genético do vírus, mas não determina sozinha se as partículas estavam viáveis, em dose infectante ou capazes de provocar transmissão.

O estudo encontrou vírus viável?

Vírus capaz de replicação foi recuperado em uma parte das amostras cloacais utilizadas nos experimentos com ovos embrionados. Esse resultado não deve ser automaticamente atribuído aos filtros de ar.

A amostragem de ar substitui swabs?

Não. O estudo sustenta seu uso como ferramenta complementar. Swabs, exames clínicos, necropsias, histórico vacinal e outros métodos continuam sendo importantes para confirmação e interpretação epidemiológica.

A técnica pode detectar Newcastle, aMPV e ILTV?

Em laboratório, PTFE e gelatina demonstraram capacidade de recuperar esses vírus. Na validação de campo apresentada no estudo, entretanto, o principal agente encontrado foi o IBV.

Qual seria a aplicação prática em biosseguridade?

Amostras ambientais podem funcionar como uma camada adicional de vigilância, ajudando a identificar circulação viral e a orientar coletas clínicas, revisão de protocolos, investigação epidemiológica e intensificação das barreiras sanitárias.

O método já pode ser adotado como protocolo padrão?

Ainda são necessárias validações mais amplas em diferentes instalações, sistemas de ventilação, agentes, idades e condições epidemiológicas antes que seja possível estabelecer um protocolo universal.

Referência

TRENADO, C.; CEA-CALLEJO, P.; GOMEZ-LUCIA, E.; NOVOA, S.; MADRID, R.; DOMÉNECH, A.; BENÍTEZ, L. Optimization of filters and processing conditions for aerosol detection of relevant avian respiratory viruses in poultry under experimental and field conditions. Veterinary Microbiology, v. 321, 111159, 2026.

Acessar o artigo na ScienceDirect
Registro do artigo no PubMed
DOI do estudo

Publicado on-line em 22 de julho de 2026.

Foto de Paulo Raffi e Luiz Eduardo Conte

Paulo Raffi e Luiz Eduardo Conte

BIOSSEGURIDADE.COM: Uma plataforma dedicada à biosseguridade para todas as espécies animais e vegetais, idealizada pelos veterinários Paulo Raffi e Luiz Eduardo Conte que juntos possuem mais de 60 anos de experiência no setor. Ambos compartilham o objetivo de conscientizar sobre a biosseguridade e contribuir para ambientes mais seguros na produção animal e vegetal, baseando-se na experiência prática acumulada e em estratégias empresariais e de comunicação eficazes para o crescimento da Biosseguridade.com.

Deixe uma mensagem

Sobre a Plataforma

BIOSSEGURIDADE.COM é uma plataforma dedicada à biosseguridade para todas as espécies animais e vegetais, idealizada pelos veterinários Paulo Raffi e Luiz Eduardo Conte que juntos possuem mais de 60 anos de experiência no setor. Ambos compartilham o objetivo de conscientizar sobre a biosseguridade e contribuir para ambientes mais seguros na produção animal e vegetal, baseando-se na experiência prática acumulada e em estratégias empresariais e de comunicação eficazes para o crescimento da Biosseguridade.com.

Últimas Notícias

Estamos no Youtube