Aquicultura supera 100 milhões de toneladas e amplia debate sobre sustentabilidade e gestão de riscos

15 March 2022, Lopez Jaena, Misamis Occidental, Philippines - Gerry Y. Pepania, 25, feeds the bangus (milkfish) in the "Norwegian style" fish cage that he is the caretaker of in the Mariculture Park off of the shore of Barangay Biasong in Lopez Jaena. Pepania says he prefers to work on the fish cages farming bangus (milkfish) rather than work in traditional fishing which is more unstable in terms of income.

A produção mundial de pesca e aquicultura atingiu um novo recorde em 2024, alcançando 235 milhões de toneladas, segundo o relatório The State of World Fisheries and Aquaculture 2026 (SOFIA 2026), da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Desse total, 195 milhões de toneladas corresponderam a animais aquáticos, confirmando a importância crescente do setor para a oferta mundial de alimentos.

O relatório foi lançado oficialmente em 16 de junho de 2026, durante a 11ª Our Ocean Conference, realizada em Mombasa, no Quênia. No press release divulgado pela FAO na mesma data, a organização destacou que o crescimento da produção ocorre em paralelo a desafios relacionados à sustentabilidade, à equidade, às mudanças climáticas e à pressão sobre os ecossistemas marinhos e de águas interiores.

Embora a edição seja de 2026, os dados consolidados mais recentes de produção apresentados pela FAO são referentes a 2024. Alguns indicadores, como disponibilidade per capita de alimentos aquáticos e sustentabilidade dos estoques pesqueiros, utilizam dados de 2023, com estimativas para 2024.

Aquicultura ultrapassa 100 milhões de toneladas pela primeira vez

Um dos principais destaques do SOFIA 2026 é o avanço da aquicultura.

Em 2024, a produção aquícola de animais aquáticos atingiu 103 milhões de toneladas, ultrapassando pela primeira vez a marca de 100 milhões de toneladas. Esse volume foi avaliado em aproximadamente US$ 371 bilhões na porteira da fazenda.

Com esse resultado, a aquicultura passou a responder por 53% da produção mundial de animais aquáticos e por mais de 59% da produção de animais aquáticos destinada à alimentação.

Quando as algas também são consideradas, a produção aquícola chegou a 141 milhões de toneladas, com valor estimado em US$ 391 bilhões.

Segundo a FAO, desde o final da década de 1980, praticamente todo o crescimento da produção aquática mundial ocorreu por meio da aquicultura.

O dado mostra como o setor deixou de ocupar uma posição complementar e passou a exercer papel central na expansão da oferta mundial de alimentos aquáticos.

Pesca de captura permanece relativamente estável

Enquanto a aquicultura segue em expansão, a pesca de captura apresenta um comportamento mais estável.

Em 2024, a produção de animais aquáticos provenientes da pesca de captura alcançou cerca de 92 milhões de toneladas, das quais aproximadamente 80 milhões de toneladas vieram da pesca marinha.

Desde o final da década de 1980, a produção da pesca de captura permanece dentro de uma faixa entre 86 milhões e 94 milhões de toneladas por ano.

Segundo a FAO, essa estabilidade reflete tanto os limites ecológicos dos recursos pesqueiros quanto os efeitos positivos da gestão aplicada a determinados estoques.

Pesca continental e capturas de atum também bateram recordes

O press release da FAO traz ainda outros dados que ajudam a dimensionar a produção pesqueira mundial.

As capturas de atum atingiram o recorde de 9,3 milhões de toneladas em 2024.

A pesca continental também alcançou um novo máximo histórico, com 12,3 milhões de toneladas produzidas no mesmo ano.

Outro destaque foi a recuperação da pesca de anchoveta, cuja captura aumentou 109% em 2024, passando de 2,4 milhões de toneladas em 2023 para mais de 5 milhões de toneladas.

Esses números mostram que, embora a produção global da pesca de captura tenha se estabilizado em termos gerais, existem importantes variações entre espécies, regiões e sistemas produtivos.

A maior parte da produção é destinada ao consumo humano

Os alimentos aquáticos têm papel crescente na alimentação mundial.

Segundo a FAO, 89% da produção de animais aquáticos é destinada ao consumo humano.

Esses alimentos fornecem pelo menos um quinto da proteína animal consumida por cerca de 3,1 bilhões de pessoas.

Além da contribuição nutricional, a pesca e a aquicultura possuem grande importância econômica e social. A FAO estima que o setor sustente os meios de vida de mais de 600 milhões de pessoas em todo o mundo.

Disponibilidade de alimentos aquáticos ainda é desigual

Apesar do crescimento da produção, o acesso aos alimentos aquáticos apresenta grandes diferenças regionais.

Em 2023, a disponibilidade média mundial foi de 21,1 kg por pessoa, com estimativa de aumento para 21,3 kg por habitante em 2024.

Na Ásia, a disponibilidade chegou a 26,3 kg por pessoa em 2023.

Na África, porém, ficou em apenas 9,1 kg por habitante.

Para a FAO, essa diferença evidencia a necessidade de políticas capazes de ampliar o acesso aos benefícios nutricionais e econômicos proporcionados pelos sistemas alimentares aquáticos.

Comércio internacional movimenta US$ 184 bilhões

Outro dado relevante do SOFIA 2026 é o crescimento do comércio internacional.

O comércio de animais aquáticos alcançou aproximadamente US$ 184 bilhões, valor que, segundo a FAO, já se aproxima do comércio internacional de carnes de animais terrestres.

Mais de um terço da produção mundial de animais aquáticos é comercializada internacionalmente.

Entre 1976 e 2024, o valor das exportações do setor aumentou mais de 23 vezes em termos nominais e quase seis vezes em termos reais.

A FAO relaciona esse avanço ao crescimento da produção, à melhoria da logística e do processamento, aos preços competitivos e à liberalização do comércio.

Sustentabilidade dos estoques continua no centro do debate

O SOFIA 2026 também avalia a sustentabilidade dos recursos pesqueiros.

Em 2023, 72,6% dos desembarques pesqueiros globais foram provenientes de estoques considerados biologicamente sustentáveis.

O número mostra que uma parcela significativa da produção ocorre dentro de níveis considerados compatíveis com a capacidade de renovação dos estoques, mas também revela que ainda existe espaço para melhorar a gestão dos recursos.

No documento, a FAO destaca a necessidade de fortalecer a governança, o monitoramento, a coleta de dados e a gestão baseada em evidências científicas.

Mudanças climáticas aumentam pressão sobre pesca e aquicultura

Além dos desafios relacionados aos estoques pesqueiros, a FAO chama atenção para os efeitos das mudanças climáticas, da degradação ambiental, dos choques econômicos e das mudanças geopolíticas sobre a pesca e a aquicultura.

Em cenários de altas emissões, a biomassa de peixes disponível para exploração poderá cair mais de 10% até 2050 em diversas regiões.

A projeção reforça a necessidade de sistemas produtivos mais resilientes, capazes de se adaptar às mudanças ambientais e utilizar os recursos naturais de maneira mais eficiente.

Produção de animais aquáticos pode chegar a 214 milhões de toneladas até 2034

A FAO projeta continuidade do crescimento da produção, do consumo e do comércio de alimentos aquáticos.

Até 2034, a produção mundial de animais aquáticos poderá atingir aproximadamente 214 milhões de toneladas.

A expansão deverá continuar sendo impulsionada principalmente pela aquicultura.

Esse crescimento amplia a necessidade de conciliar aumento da produção com eficiência, sustentabilidade ambiental, sanidade e capacidade de gestão dos sistemas produtivos.

Crescimento da aquicultura também amplia a necessidade de gestão sanitária

O SOFIA 2026 não é um relatório específico sobre biosseguridade. Seu foco é amplo e envolve produção, comércio, consumo, sustentabilidade, gestão dos recursos e perspectivas para o setor.

No entanto, o crescimento expressivo da aquicultura ajuda a dimensionar a importância da gestão sanitária dentro dos sistemas produtivos.

Com a intensificação da produção, tornam-se cada vez mais relevantes aspectos como:

  • qualidade da água;
  • movimentação de animais;
  • monitoramento sanitário;
  • controle de agentes infecciosos;
  • limpeza e desinfecção;
  • manejo adequado;
  • capacitação das equipes;
  • rastreabilidade;
  • prevenção da introdução e disseminação de doenças.

A relação entre o crescimento da produção aquícola e a necessidade de fortalecer a biosseguridade é uma contextualização editorial da Biosseguridade.com, baseada nos desafios inerentes à expansão e à intensificação dos sistemas produtivos, e não uma conclusão específica atribuída ao relatório da FAO.

E o Brasil? Produção de tilápia reforça os desafios sanitários da aquicultura

O Brasil também ocupa uma posição relevante no avanço da aquicultura mundial. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) inclui o país entre os importantes produtores de tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus), espécie que ganhou espaço significativo na produção aquícola brasileira.

O crescimento de sistemas intensivos de produção amplia, ao mesmo tempo, a necessidade de atenção à sanidade dos plantéis. Quanto maior a concentração de animais e a movimentação de peixes, equipamentos, água e pessoas entre unidades produtivas, maior a importância de medidas capazes de reduzir a introdução e a disseminação de agentes infecciosos.

Nesse contexto, a biosseguridade envolve ações como monitoramento sanitário, controle da origem dos animais, qualidade da água, limpeza e desinfecção, manejo adequado, controle de acesso às unidades de produção e resposta rápida diante de alterações sanitárias.

A conexão entre o crescimento da aquicultura brasileira e a necessidade de fortalecer essas medidas é uma análise editorial da Biosseguridade.com. O SOFIA 2026 não apresenta a biosseguridade como tema central, mas evidencia a expansão global da aquicultura e a necessidade de tornar os sistemas produtivos cada vez mais sustentáveis e resilientes.

Blue Transformation busca conciliar produção, sustentabilidade e inclusão

O SOFIA 2026 também apresenta resultados relacionados à estratégia Blue Transformation, desenvolvida pela FAO.

A iniciativa busca tornar os sistemas alimentares aquáticos mais produtivos, eficientes, sustentáveis, resilientes e inclusivos.

Na aquicultura, a FAO destaca ações relacionadas a:

  • governança baseada em ciência;
  • planejamento espacial;
  • inovação;
  • adaptação às mudanças climáticas;
  • sistemas integrados de produção;
  • eficiência no uso de recursos.

Entre os exemplos citados estão sistemas integrados de produção de arroz e peixes, produção de trutas e modelos que combinam aquicultura com geração de energia renovável.

Na pesca de captura, a estratégia envolve fortalecimento da governança, melhoria da coleta de dados, ampliação do monitoramento e da fiscalização e combate à pesca ilegal, não declarada e não regulamentada.

Um setor cada vez mais estratégico para a segurança alimentar

Os números apresentados no SOFIA 2026 mostram que os alimentos aquáticos ocupam uma posição cada vez mais relevante nos sistemas alimentares globais.

A aquicultura ultrapassou pela primeira vez a marca de 100 milhões de toneladas de animais aquáticos produzidos e deverá continuar sendo o principal motor de expansão do setor nos próximos anos.

Ao mesmo tempo, a FAO alerta que crescimento, sustentabilidade e equidade precisam avançar de forma conjunta.

Para a aquicultura, aumentar a produção será apenas uma parte do desafio. Produzir com eficiência, sanidade, sustentabilidade e capacidade de adaptação será cada vez mais determinante para o futuro do setor.

Perguntas frequentes sobre o SOFIA 2026

O que é o SOFIA 2026?

O The State of World Fisheries and Aquaculture 2026 é um relatório da FAO que reúne dados e análises sobre pesca, aquicultura, consumo, comércio, sustentabilidade dos estoques, mudanças climáticas e perspectivas dos sistemas alimentares aquáticos.

Quando o SOFIA 2026 foi lançado?

O relatório foi lançado oficialmente em 16 de junho de 2026, durante a 11ª Our Ocean Conference, realizada em Mombasa, no Quênia.

Os dados do relatório são de 2026?

Não. A edição é de 2026, mas os dados consolidados mais recentes de produção são referentes a 2024. Alguns indicadores utilizam informações de 2023 e estimativas para 2024.

Quanto a aquicultura produziu em 2024?

A produção aquícola de animais aquáticos chegou a 103 milhões de toneladas em 2024. Incluindo as algas, a produção total da aquicultura atingiu 141 milhões de toneladas.

Qual foi o valor da produção aquícola?

A produção de 103 milhões de toneladas de animais aquáticos foi avaliada em aproximadamente US$ 371 bilhões na porteira da fazenda. Incluindo as algas, a aquicultura movimentou aproximadamente US$ 391 bilhões.

Qual é a participação da aquicultura na produção mundial?

A aquicultura responde por 53% da produção mundial de animais aquáticos e por mais de **59% da produção de animais aquáticos destinada à alimentação.

Quanto da produção é destinado ao consumo humano?

Cerca de 89% da produção mundial de animais aquáticos é destinada ao consumo humano.

Quantas pessoas dependem da pesca e da aquicultura?

Segundo a FAO, o setor sustenta os meios de vida de mais de 600 milhões de pessoas em todo o mundo.

Qual é a projeção de produção mundial de animais aquáticos para 2034?

A FAO projeta que a produção mundial de animais aquáticos poderá chegar a aproximadamente 214 milhões de toneladas até 2034.

O SOFIA 2026 é um relatório sobre biosseguridade?

Não. O relatório trata de pesca e aquicultura de maneira ampla. A relação entre o crescimento da aquicultura e a necessidade de fortalecer biosseguridade e gestão sanitária é uma contextualização editorial da Biosseguridade.com.

Fontes

FAO — The State of World Fisheries and Aquaculture 2026 (SOFIA 2026)
Relatório completo: https://openknowledge.fao.org/items/8beea7f6-8644-4ad4-8b16-723236afb857

FAO Newsroom — SOFIA 2026: Global fisheries and aquaculture production reaches new highs
Press release oficial publicado em 16 de junho de 2026:
https://www.fao.org/newsroom/detail/sofia-2026–global-fisheries-and-aquaculture-production-reaches-new-highs/en

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Paulo Raffi e Luiz Eduardo Conte

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