Você já pensou em quantos pontos de uma propriedade leiteira podem funcionar como porta de entrada para agentes infecciosos?
A circulação de pessoas e veículos, o manejo dos animais, as instalações, os registros sanitários e até a forma como uma decisão de tratamento é tomada podem aumentar ou reduzir riscos.
É justamente essa lógica que está por trás da Certificação em Biosseguridade (CBS), programa desenvolvido pela Embrapa Gado de Leite em parceria com a Boehringer Ingelheim e que deve alcançar 160 propriedades leiteiras brasileiras. O protocolo avalia mais de 140 pontos críticos relacionados à biosseguridade nas fazendas.
Mais do que conceder um selo, a proposta é transformar prevenção em um processo que possa ser avaliado, registrado, acompanhado e auditado.
Mais de 140 pontos críticos são avaliados
A certificação considera riscos relacionados a diferentes componentes da atividade, entre eles:
- animais;
- pessoas;
- veículos;
- instalações;
- processos produtivos;
- registros sanitários;
- práticas de manejo.
A metodologia permite elaborar um diagnóstico da propriedade e estabelecer metas para corrigir pontos considerados mais vulneráveis.
Segundo a Embrapa, os estudos que deram origem ao programa identificaram mais de 140 pontos críticos na produção de leite em relação às boas práticas de biosseguridade. A análise considera risco, probabilidade, severidade, capacidade de detecção e pontos críticos de controle.
A lógica é semelhante à de outros sistemas de gestão de risco: primeiro é necessário identificar onde uma falha pode ocorrer para depois priorizar as medidas capazes de reduzi-la.
Da recomendação para uma rotina que pode ser auditada
A origem do programa está em estudos da Embrapa Gado de Leite sobre prevenção de doenças nos rebanhos.
Em 2021, Embrapa e Boehringer Ingelheim iniciaram a parceria para desenvolver o Programa de Certificação em Biosseguridade. O modelo foi estruturado a partir de boas práticas e procedimentos operacionais padronizados e validado no campo.
A certificação funciona em um modelo de terceira parte. Isso significa que Embrapa Gado de Leite e Boehringer Ingelheim desenvolveram o programa, mas a concessão da certificação é realizada por uma certificadora credenciada.
A propriedade interessada precisa primeiro se adequar aos requisitos do programa. Depois, solicita a certificação e passa por auditoria. Somente as propriedades que cumprem os requisitos mínimos recebem a certificação.
Essa estrutura é importante porque transforma orientações de biosseguridade em critérios passíveis de verificação.
Biosseguridade também significa decidir quando não tratar
Um dos resultados mais interessantes apresentados pela Embrapa está relacionado ao uso de antimicrobianos.
Na Fazenda Santa Luzia, em Passos (MG), o diagnóstico prévio passou a orientar decisões de tratamento.
A propriedade registrou redução de:
- 50% no uso de antibióticos para mastite clínica;
- 70% para casos de tristeza parasitária bovina.
Entre 3.161 casos avaliados, 1.366 — equivalentes a 43% — apresentaram resultado negativo e dispensaram o uso do medicamento.
Esse dado ajuda a mostrar uma mudança importante de lógica.
Biosseguridade não significa apenas evitar que doenças entrem na propriedade. Ela também envolve informação suficiente para tomar decisões sanitárias mais precisas.
Menos tratamentos também reduziram descarte de leite
Na mesma propriedade, a mudança teve reflexo econômico. Segundo os dados divulgados pela Embrapa, a redução de tratamentos evitou o descarte de 244,5 mil litros de leite por ano, que ocorreria em função do período de carência dos medicamentos.
O impacto econômico positivo foi estimado em R$ 660 mil anuais.
É importante observar que esses números correspondem à experiência específica da propriedade e não significam que todas as fazendas participantes obterão os mesmos resultados.
Mesmo assim, eles mostram que medidas sanitárias podem ser analisadas também sob a ótica da eficiência produtiva.
Secagem seletiva mudou o uso de antibióticos em outra fazenda
Outro exemplo apresentado pela Embrapa vem da Fazenda Colorado, em Araras (SP). Em 2016, 100% das vacas recebiam antibióticos no momento da secagem da lactação. Em 2026, cerca de 80% dos animais que entram no período seco recebem apenas selante, enquanto os antimicrobianos são reservados aos casos em que há indicação.
A mudança foi gradual. Em 2024, 64% das vacas já passavam pela secagem sem antibiótico. No mesmo intervalo, o rebanho em lactação cresceu de 1.700 para 2.400 vacas entre 2016 e 2024, segundo a Embrapa.
O exemplo reforça um princípio importante: o objetivo não é simplesmente reduzir medicamentos, mas utilizá-los quando existe justificativa técnica.
Diagnóstico antes do antibiótico ainda é um desafio
Um levantamento realizado pela Boehringer Ingelheim entre 2024 e 2025 avaliou 65 propriedades leiteiras de São Paulo e Minas Gerais.
Os resultados mostram que existe espaço para melhorar a tomada de decisão relacionada aos antimicrobianos.
Segundo os dados divulgados pela Embrapa:
- 67,7% das propriedades tinham como primeira escolha para mastite antimicrobianos classificados como criticamente importantes para a medicina humana;
- 43,1% iniciavam o tratamento imediatamente, sem diagnóstico, inclusive em casos leves;
- apenas 12,3% realizavam cultura microbiológica antes da decisão;
- 53,9% não registravam os casos de mastite;
- 90,6% não pesavam as vacas para calcular a dose dos medicamentos injetáveis.
Como o levantamento envolve 65 propriedades de duas bacias leiteiras, seus resultados não devem ser extrapolados automaticamente para toda a pecuária brasileira.
Ainda assim, eles ajudam a identificar pontos de atenção relacionados a diagnóstico, registros e uso racional de medicamentos.
Prevenir doenças também ajuda a preservar os antimicrobianos
A discussão se conecta diretamente à resistência antimicrobiana.
A Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) recomenda que o uso responsável de antimicrobianos seja acompanhado de medidas capazes de manter os animais saudáveis e reduzir a necessidade de tratamentos.
Entre essas medidas estão:
- biosseguridade;
- vacinação;
- boas práticas de manejo;
- higiene;
- nutrição adequada;
- acesso ao diagnóstico laboratorial.
A lógica não é deixar de tratar animais que precisam de medicamento. É evitar usos desnecessários e preservar a eficácia dos antimicrobianos para situações em que realmente são necessários.
Biosseguridade na pecuária leiteira vai além da porteira
O programa também está relacionado ao conceito de Saúde Única, que considera a conexão entre saúde animal, saúde humana e meio ambiente.
Na pecuária leiteira, essa relação aparece de várias formas.
Um programa sanitário bem estruturado pode reduzir a ocorrência de doenças, diminuir tratamentos desnecessários, melhorar os registros e reduzir o risco de resíduos de medicamentos no leite.
A própria Embrapa chama atenção para a importância dos registros sanitários. Sem um sistema confiável, existe risco de o leite de animais tratados chegar ao tanque antes do cumprimento do período de carência.
Nesse sentido, biosseguridade passa a envolver também rastreabilidade e qualidade da informação.
Um selo que já chegou ao supermercado
A certificação deixou de ficar restrita à propriedade.
Segundo a Embrapa, o selo da CBS já identifica produtos comercializados em supermercados.
A Boehringer Ingelheim informa que o projeto-piloto realizado em 2024 certificou duas fazendas, envolvendo cerca de 4.500 animais e uma produção conjunta de aproximadamente 120 mil litros de leite por dia. Produtos provenientes dessas propriedades chegaram ao mercado identificados com a certificação.
Esse movimento acrescenta outro componente à biosseguridade: a possibilidade de demonstrar ao mercado que determinadas práticas sanitárias foram implantadas e auditadas.
O que muda quando a biosseguridade pode ser medida?
Talvez esse seja um dos pontos mais relevantes da iniciativa.
Durante muito tempo, recomendações como controlar visitantes, registrar tratamentos, monitorar doenças e estabelecer barreiras sanitárias poderiam ser tratadas de forma isolada.
Um sistema de certificação muda essa lógica.
As medidas passam a fazer parte de um processo organizado:
identificar o risco → avaliar a propriedade → corrigir falhas → registrar procedimentos → acompanhar resultados → auditar.
Isso ajuda a transformar biosseguridade de uma lista de recomendações em gestão sanitária baseada em evidências.
Certificação não significa risco zero
É importante fazer uma distinção.
Nenhum programa de biosseguridade consegue eliminar completamente o risco de entrada ou disseminação de agentes infecciosos.
O objetivo é reduzir a probabilidade de ocorrência, melhorar a capacidade de prevenção e permitir respostas mais rápidas quando um problema é identificado.
Por isso, a certificação não deve ser interpretada como garantia absoluta de ausência de doenças.
Ela demonstra que a propriedade adotou e comprovou o cumprimento de requisitos definidos pelo programa.
Chegar a 160 fazendas representa mudança de escala
A previsão de alcançar 160 propriedades dá outra dimensão ao programa.
O que começou com estudos, validação em propriedades-piloto e criação de protocolos passa para uma etapa de expansão.
Essa mudança também permite avaliar como os requisitos funcionam em sistemas produtivos diferentes.
As propriedades leiteiras brasileiras variam em tamanho, nível tecnológico, modelo de alojamento, mão de obra e manejo. Por isso, a ampliação pode gerar informações importantes sobre a aplicação prática da biosseguridade em diferentes realidades.
Biosseguridade como investimento
Os resultados apresentados até agora também ajudam a mudar uma percepção recorrente.
Investimentos sanitários costumam ser associados apenas a custos.
Mas a experiência das propriedades certificadas mostra que prevenção, diagnóstico e registros também podem influenciar:
- uso de medicamentos;
- descarte de leite;
- eficiência produtiva;
- qualidade sanitária;
- rastreabilidade;
- acesso a mercados;
- credibilidade da propriedade.
A biosseguridade passa, assim, a ser analisada não apenas como uma barreira contra doenças, mas como parte da gestão do ativo produtivo.
É uma mudança importante de perspectiva: prevenir não significa somente evitar uma doença. Significa proteger animais, produção, investimentos e a capacidade de continuar produzindo com segurança.
Perguntas frequentes
O que é a Certificação em Biosseguridade para propriedades leiteiras?
É um programa desenvolvido pela Embrapa Gado de Leite e pela Boehringer Ingelheim para avaliar e certificar práticas de biosseguridade nas propriedades produtoras de leite.
Quantos pontos são avaliados?
O programa considera mais de 140 pontos críticos relacionados a animais, pessoas, veículos, instalações e processos produtivos.
Quantas propriedades poderão participar?
Segundo a atualização divulgada pela Embrapa em novembro de 2026, a certificação deve alcançar 160 propriedades leiteiras no Brasil.
Quem concede a certificação?
O modelo é de certificação de terceira parte. Depois de se adequar aos requisitos, a propriedade solicita auditoria a uma certificadora credenciada, responsável por avaliar o cumprimento das exigências.
O programa busca eliminar o uso de antibióticos?
Não. O objetivo é favorecer decisões baseadas em diagnóstico e critérios técnicos e evitar tratamentos desnecessários. Antimicrobianos continuam sendo ferramentas essenciais quando há indicação veterinária.
Quais resultados já foram observados?
Em uma das propriedades certificadas, houve redução de 50% no uso de antibióticos para mastite clínica e de 70% para tristeza parasitária bovina. Na mesma fazenda, foram evitados 244,5 mil litros de descarte de leite por ano, com impacto estimado em R$ 660 mil anuais.
Esses resultados podem ser esperados em qualquer fazenda?
Não. Os números divulgados correspondem a propriedades específicas. Resultados dependem da situação sanitária, do sistema produtivo, da implantação das medidas e de outros fatores.
Qual a relação entre biosseguridade e resistência antimicrobiana?
Prevenir doenças reduz a necessidade de tratamentos e ajuda a evitar o uso desnecessário de antimicrobianos. A OMSA inclui biosseguridade, vacinação, boas práticas de manejo e diagnóstico entre as medidas que contribuem para o uso responsável desses medicamentos.
A certificação já aparece em produtos comercializados?
Sim. Segundo a Embrapa, o selo já identifica produtos disponíveis no varejo.
Fontes
Embrapa Gado de Leite — “Certificação em biosseguridade avança e deve alcançar 160 propriedades leiteiras”, publicada em 3 de novembro de 2026.
Embrapa Gado de Leite — Programa de Certificação em Biosseguridade para propriedades leiteiras.
Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) — orientações sobre uso responsável de antimicrobianos e prevenção de doenças.
Feed&Food — “Protocolo de biosseguridade pode chegar a 160 fazendas leiteiras”, publicada em 6 de novembro de 2026.




